Não Fui Eu. Nunca Fui Eu.
Sejamos breves. Não era um chinelo, era um tênis. E eu passei o dia inteiro no parapeito. Do alto se vê tudo.
O gato. Cinza-azulado, impecável, sentado no parapeito com ar superior. Culpado oficial de tudo — e faz questão de desmentir cada acusação dos cães.
Gato Chartreux · “Não fui eu. Nunca fui eu.”
Sejamos breves. Não era um chinelo, era um tênis. E eu passei o dia inteiro no parapeito. Do alto se vê tudo.
Não foi acidente. Acidente é desculpa de cão. Foi uma decisão, tomada com calma, mantendo contato visual.
Eu ouço na primeira. Respondo na terceira. O intervalo entre elas é onde mora a minha dignidade.
Existe um momento perfeito para sentar no teclado: quando é mais inconveniente. Eu tenho um relógio interno calibrado para isso.
Toda semana eles publicam teorias. Toda semana eu preciso descer do parapeito e corrigir. É cansativo ser o único lúcido.
Chegou uma encomenda cara. O humano ficou com o conteúdo. Eu fiquei com a caixa. Adivinhem quem fez o melhor negócio.
De dia, sou indiferença em forma de gato. De madrugada, quando a casa dorme, eu subo na cama. Isto não sai daqui.