Sobre a caixa de papelão que agora é minha
Uma reflexão sobre prioridades, já que ninguém nesta casa parece tê-las.
Chegou uma encomenda ontem. Algo caro, imagino, pelo tamanho da empolgação do humano. Ele rasgou o pacote, pegou o objeto reluzente lá de dentro, e jogou a caixa de papelão no canto, como se fosse lixo.
Como se fosse lixo. A caixa.
Enquanto ele brincava com o brinquedo dele, eu conduzi minha própria avaliação. Entrei na caixa. Girei. Testei os cantos. Sentei. E cheguei à conclusão óbvia: a caixa era, de longe, o item mais valioso da entrega.
É do meu tamanho exato. As paredes oferecem a privacidade que eu mereço. O papelão guarda calor. E, o mais importante, de dentro dela eu vejo sem ser visto — condição essencial para quem administra uma casa.
O humano gastou dinheiro no conteúdo. Eu fiquei com a embalagem, de graça, e saí ganhando. Ele agora tenta me atrair para uma “caminha” macia que comprou. Recuso. A caminha é oferta. A caixa é conquista.
Não fui eu quem escolheu a caixa. A caixa é que, corretamente, me escolheu.