cãoque.lat
Cadillac
Cadillac

Sobre a caneta que caiu. Sim, eu olhei.

Vão me perguntar sobre a caneta. Então vamos resolver isso rápido, que eu tenho uma soneca marcada.

Sim, a caneta caiu da mesa. Não, não foi acidente. Acidente é aquilo que acontece com os cães — eles esbarram, correm, derrubam, e depois inventam uma história de “zoeira das sete”. Comigo é diferente. Eu não esbarro. Eu decido.

A caneta estava na beirada. Eu estava na mesa, sentado, elegante como sempre. O humano me olhou e disse “não”. Foi o “não” que selou o destino da caneta.

Estendi uma pata. Apoiei na caneta. E — isto é importante — mantive contato visual. Não desviei o olhar em nenhum momento. Empurrei devagar, com a serenidade de quem não deve satisfação a ninguém, até a caneta encontrar a gravidade. Tec. No chão.

Não é destruição. É uma demonstração de que a mesa, a caneta e, no fundo, a casa inteira, respondem à minha curadoria. O humano precisa ser lembrado, de tempos em tempos, de quem administra o gosto neste lar.

Ele suspirou e pegou a caneta. Vai cair de novo amanhã. Não por raiva — eu não sinto raiva, sinto padrão. Simplesmente porque fica melhor no chão quando fui eu quem decidiu.

Não fui eu. Mas fui, sim. Elegantemente.