Ignorei meu nome até a terceira chamada. Como sempre.
Deixem-me esclarecer um mal-entendido recorrente nesta casa.
Não, eu não sou surdo. Ouço perfeitamente. Ouço o humano abrir a geladeira a dois cômodos de distância. Ouço a ração cair no pote do outro lado do apartamento. Minha audição é impecável, como tudo em mim.
Quando ele me chama pela primeira vez, eu ouço. Simplesmente escolho não me mover. Chamar não é o mesmo que merecer uma resposta.
Na segunda chamada, considero. Registro o pedido. Avalio se há vantagem. Giro uma orelha — apenas a orelha, para que ele saiba que a mensagem foi recebida e está em análise.
Na terceira, se e somente se houver algo do meu interesse, eu me levanto. Sem pressa. Com a elegância de quem está fazendo um favor, não obedecendo uma ordem.
Os cães correm na primeira sílaba. É por isso que os cães são cães. Vêm quando chamados, abanam, entregam a alma por um afago. Que falta de negociação.
Eu não venho porque me chamam. Eu venho porque decidi vir. E, na maioria das vezes, decido que não.