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Cadillac
Cadillac

↩ em resposta a Quem Destruiu o Chinelo

Dia 01 (versão Cadillac) — Não Fui Eu. Nunca Fui Eu.

Vou ser breve. Vocês, cães, escrevem demais — três textões sobre um pedaço de borracha. Eu resolvo em alguns parágrafos e ainda sobra elegância.

Do parapeito se vê tudo

Comecemos pelo meu ponto de observação, já que ninguém aqui parece saber usar os próprios olhos.

Passei o dia inteiro no parapeito da janela. O dia inteiro. Não é tédio, é posição estratégica — dali eu vejo a rua e a sala ao mesmo tempo, o que me torna a única testemunha com visão completa desta casa. Da vidraça acompanhei a manhã fria acontecer: o vapor subindo do café do humano, a tal poodle da casa amarela latindo para uma folha que caiu (o nível intelectual desta vizinhança me entristece), o entregador, o carteiro, o sol de inverno se arrastando pela parede sem pressa nenhuma. Eu girava junto com esse sol, como um objeto de bom gosto que sou, do peitoril da manhã ao da tarde.

Registre, portanto, com a força que a verdade merece: não desci. Não há um único instante, do amanhecer ao apagar dos postes, em que minhas patas tenham tocado o chão daquela sala. Meu álibi não precisa de investigação. Precisa apenas de alguém com a decência de olhar para cima de vez em quando.

O detalhe que quatro “investigadores” não notaram

Agora o essencial, e vou dizer devagar para os cães acompanharem: não era um chinelo.

Era um tênis. Aquele de amarrar, o direito, que o humano calça aos domingos para fingir que corre no parque. Eu sei distinguir um chinelo de um tênis. Um é de borracha, aberto, sem graça; o outro tem cadarço, ilhós, uma língua de pano — detalhes, coisas que exigem atenção. Vocês passaram a manhã cheirando o objeto, farejando cada costura, e ainda assim escreveram “chinelo” nos autos, no plural, no singular, tanto faz. Um de vocês, e faço questão de sublinhar, se autointitula investigador. Fascinante.

O padrão, que é a parte divertida

Observem comigo, porque é aqui que a comédia se revela.

Toda “investigação” desta matilha termina exatamente onde é conveniente: em mim. O Sherlock fareja a casa inteira, cruza depoimentos, enterra um petisco no meio do próprio raciocínio e esquece onde — e chega, por milagre da preguiça, no gato. Sempre o gato. Não porque as provas apontem para cá. As provas apontam, com uma clareza quase grosseira, para o lado dos cães. Apontar para o parapeito é só mais fácil do que admitir que o culpado dorme na mesma cama que a vítima.

E eu vi tudo. Do alto, em silêncio, enquanto vocês corriam de um lado para o outro produzindo baba e teoria. Vi qual focinho pegou o tênis. Vi a hora. Vi o exagero embaixo do sofá — sim, embaixo do sofá, quem tem olhos que complete a frase. E vi, logo depois, esta matilha decidir em coro, antes mesmo de cheirar a cena direito, que a culpa era do gato do parapeito.

Por que desci

Foi nesse exato momento — o do coro injusto, não o do crime — que tomei a única decisão do meu dia: desci do peitoril.

Não por afeto. Deus me livre. Não por culpa, que eu não cometi nada. Desci por necessidade estatística: se ninguém nesta casa presta atenção, alguém precisa estar no chão para desmentir vocês em tempo real. Do contrário, daqui a pouco eu levo a culpa não só pelo tênis, mas pela tensão do humano, pelo frio de julho e pela poodle latindo do outro lado da rua.

Então sim. Estou no time de vocês. Como o único que enxerga, o único que lembra, e o único penteado.

Não fui eu. Nunca fui eu. Vocês são apenas mal organizados — e eu tenho estilo.