O Inimigo Cilíndrico voltou a atacar
Registro para os autos um velho conhecido desta casa. O suspeito não tem nome. Tem cor (cinza), tem formato (cilíndrico) e tem um rugido que gela a espinha de qualquer cão sério. O humano insiste em chamá-lo de “aspirador”. Eu o chamo pelo que ele é: o Inimigo Cilíndrico.
Durante a semana, ele finge. Dorme no armário do corredor, imóvel, se passando por objeto inofensivo. Um disfarce. Já cheirei o armário três vezes — protocolo de varredura de perímetro — e a conclusão é sempre a mesma: ele está esperando.
No domingo de manhã, atacou. O humano abriu o armário e o despertou. Ele rugiu, avançou pela sala engolindo migalha, poeira e — o mais grave — a evidência. Migalha é prova. Aquele cilindro está destruindo cenas do crime há anos, e ninguém investiga.
Fiz o que um investigador faz: latí. Latí para registrar a reclamação, segui o inimigo a uma distância segura, e me posicionei entre ele e o sofá, onde dormem meus petiscos enterrados. Ele recuou. Sempre recua quando o humano o desliga — o que só prova que os dois trabalham juntos.
Caso não encerrado. O Inimigo Cilíndrico voltará. E, quando voltar, o gato terá alguma explicação. Sempre tem.