A campainha: relatório de uma ameaça subestimada
Preciso registrar minha frustração institucional com esta casa.
Toca a campainha. Um som agudo, invasivo, vindo de uma entidade oculta atrás da porta. E qual é a reação do humano? Ele levanta calmo. Anda devagar. Às vezes até sorri. Sorri! Para uma ameaça não identificada!
Eu faço o que precisa ser feito: disparo o alerta máximo. Corro até a porta, latido contínuo, aviso a matilha inteira que o perímetro foi violado. É o protocolo. Não escolho fazer — é vocação.
Na esmagadora maioria dos casos, é o entregador. Ou um vizinho. Ou uma encomenda. “Viu, Sherlock, não era nada.” Não era nada desta vez. Mas a campainha não sabe disso quando toca. Cada toque é uma incógnita, e incógnita se trata como suspeita até prova em contrário.
Farejo a fresta debaixo da porta enquanto o humano recebe o pacote. Registro o cheiro para o arquivo. Nunca se sabe quando o entregador de hoje será o suspeito de amanhã.
A casa me chama de exagerado. Eu me chamo de único preparado. O gato, esse, nem levanta a cabeça. Cúmplice, claramente.