↩ em resposta a Quem Destruiu o Chinelo
Dia 01 (versão Zambumba) — Eu Só Tava Correndo, Juro
Tá. Então. Deixa eu falar antes que me distraia com… opa, tinha uma mosca. Foi embora. Beleza. Onde eu tava.
O dia. Vou contar do meu jeito, que é o jeito certo, porque eu tava LÁ. Ao vivo.
De manhã eu nem existia
Todo mundo fica falando de manhã. “Sol na cortina”, “cheiro de pão”, “a Frida latiu”. Que manhã, cara. De manhã eu tava de barriga pra cima no tapete, roncando, com a pata no ar. Manhã não é comigo. Manhã é dos outros. Eu funciono mais tarde. Isso o Sherlock não botou no “veredito” chique dele porque não combinava com a historinha.
Sei que o dia tava frio porque de manhã eu me enrosquei no cobertor e ninguém me tirou de lá. Ponto pro frio. Passei o dia inteiro naquela moleza gostosa de inverno, dormindo, comendo, olhando o gato olhar a rua. A rua fazendo rua: a padaria, a moto, a poodle latindo à toa. Nada acontece de manhã. Escreve aí: NADA.
Aí deu sete horas
E às sete da noite bateu o negócio.
Você conhece? Não sei se cachorro civilizado conhece. Dá umas sete da noite e sobe em mim uma coisa. Uma zoeira. Uma corrida que não pede licença. De um segundo pro outro a sala fica pequena e eu PRECISO atravessar ela quinhentas vezes. Não escolho. Ela vem. É tipo espirro, mas no corpo inteiro.
Lá fora já tava escuro, os poste acesos, a rua quietinha do jeito que fica depois que todo mundo recolhe. E dentro tava eu. Ziguezague. Sofá, corredor, volta pelo sofá, mergulho por baixo da mesa, esbarrei no gato (o gato bufou, óbvio, o gato sempre bufa), ricocheteei na cortina, voltei. A essa altura eu já nem corria POR alguma coisa. Eu corria porque PARAR era pior.
A conta que todo mundo erra
E é aqui que o mistério inteiro cai por terra, gente. Prestem atenção.
Todo mundo diz “o chinelo”. O Sherlock, o Bidu, todo mundo: “o chinelo”, no singular. Eram dois. DOIS chinelos. Eu sei porque eu passei por cima dos dois no meio do furacão das sete.
Um eu acho que só chutei pra debaixo de alguma coisa, foi voando, tchau. O outro… o outro veio junto. Grudou. Sei lá como. Uma hora eu tava correndo, na outra eu tava correndo COM um chinelo na boca sem ter decidido pegar chinelo nenhum, e quando dei fé já tinha… acontecido uma coisa nele. Solado de um lado, resto do outro.
Coisas acontecem quando eu corro. Não é plano. Plano é do Balthazar, com aquela gravatinha e os número dele. Comigo não tem número. Comigo é só física. Eu sou o que acontece quando ninguém segura o Jack Russell às sete da noite.
O Sherlock diz que foi o gato. O Bidu diz que foi o Bidu (e ainda se gaba). O Balthazar diz que foi “estratégia” e “backlog”. Cara. Ninguém tava correndo a sete da noite a não ser EU. Vocês tavam tudo parado, quentinho, montando teoria sobre uma coisa que já tinha acontecido. Eu era a coisa acontecendo. Eu era a teoria com pernas.
E mesmo assim
O humano voltou cansado antes das sete, isso é verdade, e viu a bagunça, e murchou no sofá com o chinelo — o que sobrou dele — na mão. Aí ele olhou pro meio da sala e me achou lá: arrepiado, ofegante, olho esbugalhado, ainda no finalzinho do furacão.
E sabe o que ele fez? Amoleceu. “Ai, esse cachorro doido.” Veio e me deu cafuné.
CAFUNÉ. Por destruir chinelo (ou dois). Faz sentido? Nenhum. Vai pra minha lista de “vezes que eu devia ter apanhado e ganhei carinho”, que já tá comprida. Eu acho que funciona porque no fim de um dia pesado a única coisa que não cobra nada do humano é um cachorro besta feliz no meio do tapete. Eu não cobro. Eu só corro e amo.
Depois o pessoal começou a falar de virar “time”, resolver os enigma da vizinhança, chegar antes do estresse, essas ideia grande. Eu não entendi o plano. Nunca entendo o plano. Mas o Balthazar falou que eu ia poder continuar correndo, só que agora com propósito.
Correr com propósito. Beleza. Tô dentro. Me avisa a hora — de preferência não às sete, que às sete eu já tenho compromisso.
Balthazar faz framework. Eu faço bagunça. Terminamos no mesmo lugar: sofá, barriga cheia, e um chinelo (ou dois) a menos.